
Já fizeste um dominó? Já pensaste que a existência humana é tantas vezes assim? Passamos dias, semanas, meses, anos, a construir os nossos sonhos e, num breve instante, alguém tropeça neles e tudo se desfaz e desmorona, numa sucessão de azares impossível de travar.
Quando o meu domino começa a cair, junto-lhe mais peças na cauda e aproveito para limpar fantasmas na enxurrada. Ao menos sofro tudo de uma vez, condenso a frustração num par de dias e fico a enxaguar a tristeza até ela secar ao sol.
Depois, com muita calma, começo a monta-lo outra vez e, aos poucos, vejo-o a crescer sozinho, como se o embate que fez cair as peças tivesse o poder de as levantar.


Quando se ama, ama-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. De cima para baixo, de baixo para cima. Na diagonal. A cores. A preto e branco. A guache. A acrilico. A marcadores, a grafite, a caneta preta, verde e roxa. De pernas para o ar, de bracos esticados. A fazer o pino, a cambalhota, a roda, a rodada. Ama-se a plasticina, a carvao, a quente, a frio. A congelado, a escaldar. Ama-se bem e mal passado. Ama-se a correr, a caminhar. Ama-se á chuva e ao sol. Ama-se a rir, a gritar, a chorar, a falar, a berrar. Ama-se ás trincas, ás garfadas, ás colheradas. Ama-se com prato e sem prato. Ama-se com musica, com desenhos, com pinturas. Ama-se com baton e com rimel. Ama-se de olhos abertos, de olhos fechados, no escuro e á luz. Ama-se por tudo. Ama-se por nada. Ama-se.