segunda-feira, 12 de novembro de 2007

As cerejas e a primavera

Jogas todos os dias com a luz do universo.
Visitadora súbtil, chegas com a flor e a água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
Como uma raiz em minhas mãos a cada dia.

Com ninguém te pareces desde que te amo.
Deixa-me prender-te entre as flores amarelas das grinaldas.
Quem escreve teu nome com letras de fumaça entre as estrelas do sul?
Ah! Deixa-me recordar como eras antes quando ainda não existias.

De repente o vento uiva e golpeia minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm dar todos os ventos, todos.
Te despes da chuva.

Os pássaros passam fugindo.
O vento. O vento.
Eu posso lutar contra a força dos homens.
O temporal arremessa folhas escuras
E solta todos os barcos que à noite foram amarrados ao céu.

Tu estás aqui. E tu não foges
Responderás até o último grito.
Agasalha-te a meu lado como se tivesses medo.
Sem embargo, alguma vez, uma sombra estranha correu por teus olhos.

Agora, agora também, pequena, me trazes madressilvas,
E tens até os seios perfumados.
E embora o vento triste galope matando borboletas
Eu te amo, e minha alegria morde tua boca de ameixa.

Por mais que seja doído se acostumar a mim,
A minha alma só e selvagem, a meu nome que todos afugentam.
Nós já vimos tantas vezes arder nossos olhos com os beijos das luzes
e sobre nossas cabeças sucederem-se crepúsculos como gigantescos abanos.
Minhas palavras chovem sobre ti como carícias.
Amo há muito tempo teu corpo dourado de sol.
Até te creio dona do universo.
Eu te trarei das montanhas flores alegres, florzinhas,
Avelãs escuras, e cestas selvagens de beijos.

Eu quero fazer contigo
O que a primavera faz com as cerejas.

Pablo Neruda


Afinal o que é a primavera?

A descoberta duma nova vida, o despoletar das emoções e das sensações. Depois de um tempo de tristeza, de frio, de acolhimento que foi o Inverno surge em todo o seu esplendor o sol dourado, o céu colorido de um azul mais brilhante, mais forte e mesclado de esperança. A Primavera tudo renova e transforma - o que estava adormecido e esquecido explode em sinfonia. Assim, surge ela - o objecto do amor - a mulher, que se impõe como luz do universo, cuja beleza inumana lembra uma flor, bela, frágil e perfumada para receber água, fonte de vida, de fecundidade, faz a raiz agarrar-se à terra e surgir o verde que se transformará em fruto, em flor! Logo, o amor é a fonte de energia, a chama da transformação que nos prende em suas grinaldas. Depois da flor o fruto... há também o vento que encerra o desejo por ser volátil, porque agita os corpos em frémito e provoca prazer...

Ela (mulher), ele (homem) procuram-se nesse arco-íris que parece temporal, que explode e solta amarras. Ela é a primavera que se traduz em beijos de luz e pinta as palavras de carícias, o corpo é sol! Se tudo isto é a primavera, então ele quer fazer com ela o que a primavera faz às cerejas - engravida a terra (nas suas raízes), deixa que ela expluda em prazer e faz surgir a flor e o fruto - carnudo, vermelho, saboroso.

Enfim, parece-me que isto é apenas um hino ao amor, ao erotismo, à beleza da descoberta do outro, à entrega franca e destemida dos corpos que se procuram e se desejam, como a primavera deseja colorir as flores e saborear os frutos...afinal todos somos cerejas!

Edite 07

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