
“ A vida é uma feira e tudo são barracas e saltimbancos” Álvaro de Campos
Campos é o heterónimo pessoano da vertigem, da modernidade, da loucura, do frenesim, da vontade de “ sentir tudo de todas as maneiras”. É um futurista, na verdadeira acepção da palavra, da vitalidade transbordante, que manifesta uma predilecção pelo amor ao ar livre e ao belo feroz. É, assim, um poeta emotivo e sensacionista. Neste heterónimo vislumbra-se uma luta sem quartel às tradições, à cultura feita; à exaltação dos instintos guerreiros; à apologia do Homem novo, protótipo isento de sensibilidade, saudável, amoral, dominador, livre de todas as peias. A palavra é, nesta perspectiva, a própria sensação dinâmica.
Mas, na verdade, a leitura integral do poema deixa antever um outro Campos, que só lutando consigo próprio, por um esforço de imaginação, consegue cantar o progresso delirante, já que a inércia, o tédio, a desilusão, a embriaguez da dor de viver e pensar o avassalam.
Na estrofe onde este pertence surge, aparentemente, sente-se o fascínio da sensação (“ Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações”); porém, ao afirmar que (“ A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos”), o poeta deixa transparecer a amargura de viver, a vida, afinal, é um conjunto de aparências, de hipocrisias, tudo se conjuga, apenas, para simular a dor de pensar e viver, já que ao dizer (“ penso nisto”), à sua mente aflora somente a dor, o (“ coração que chora”), a (“sombra”), pois a sua (“dor é velha”) e está fechada na feira que é a própria vida, que ele vai teatralizando par atenuar o tédio e a abulia do presente.
Efectivamente, a vida “ é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos”, esta é também a minha perspectiva.
Se pensarmos na loucura desenfreada do mundo actual, sabemos que tudo são aparências, que a simulação e a adulação dominam as nossas vidas. Vivemos ao ritmo da impaciência. Basta olhar para as filas de trânsito, ouvir as buzinadelas, ver os condutores a fumegarem, no fim de mais um dia de trabalho; já para não falar do vício do computador, do dedo sempre a clicar no rato. Isto são as nossas vidas de “feira” e é, assim, que aparentemente somos felizes. Gostamos deste viver desenfreado e sem fôlego, da adrenalina das emoções e das sensações. Todavia, tal como defende o poeta, isto é teatro, isto é falso, isto é a maldição da vida urbana. Isto é o que fazemos para simular as nossas verdadeiras vidas, pensamos que ao representar um papel de felicidade, vamos conseguir conquistá-la, mas isso não é verdade. É puro disfarce de saltimbanco que salta para atenuar a dor que verdadeiramente o consome. Já na Antiguidade, Platão disse que a vida era uma reminiscência de uma outra, essa sim, feliz e verdadeira. Assim, parece que andamos apenas e só a representar um papel que nos foi dado, mas não sabemos o que fazer com ele, quais serão os passos certos, neste palco, que é a vida?
Concluindo, eu e o poeta estamos em total sintonia, já que as sensações, a vertigem e a euforia são um disfarce para atenuar a dor de viver, num mundo que é tão perverso e faz sofrer.
4 comentários:
isso é o que se chama escrever... com alma e isso tudo
muito bem
não vou escrever nada para não estagar este tal sentimento que é o amor
já que não sei falar sobre o assunto
by:fabio rato
Ai a Tia Mirandita com fogo nas mãos.. biste-la??
pegando neste teu bocadinho de texto ( "Se pensarmos na loucura desenfreada do mundo actual, sabemos que tudo são aparências, que a simulação e a adulação dominam as nossas vidas. Vivemos ao ritmo da impaciência. ") deixo-te uma das minhas reflexões sobre o "tudo bem?"...
Deve ser esta a pergunta-resposta mais temida em todo o mundo. Se está tudo bem, ninguém quer saber. Se está tudo mal, pior ainda. Com este simples gesto de boa educação esperamos ouvir sorrisos flagrantes e ver palavras alegres a saltar-nos dos lábios. Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas, que é como quem diz, menos mal. Anda uma pessoa perdida em pensamentos e leva com um Tudo bem? em cima. Até aqui tudo bem, de facto. Só não sei se aguentas com a resposta que, por estes dias, é tudo menos politicamente correcta.
E como é que vai a vida? Olha, não sei. Então, não sabes? Não. Não está tudo bem, longe disso. Não sei onde vou, nem sei de onde venho. É aquela sensação que as pessoas nunca têm porque dizem sempre que está tudo bem. Tu também não a tens.
Estás aí a fazer horas para te ires embora mal eu diga a resposta correcta que é assumidamente o sim. Mas não. Também não tenho planos. Sei que gostavas de ouvir que amanhã vou ser famosa e ganhar montes de dinheiro à custa da minha sabedoria mas isso também não me interessa. O Tudo bem? também passa por aí, pela mentira, tens razão. Ganhei a sabedoria em cinco anos e desperdicei-a em bancos de jardim e noites mal dormidas.
Olha, e eu comprei um carro novo. Que bom! Mas cheguei a casa e não tinha ninguém a quem o mostrar. A sério? Olha, esta vida é uma correria mesmo, que pena! Desculpa lá, mas tenho muito que fazer. Adorava ficar a conversar contigo, juro, mas tem mesmo de ser, não é? Amanhã tomamos um café, talvez. Tudo bem, pode ser, não te preocupes.
E ouvem-se conversas destas todos os dias, a todas as horas, no corre-corre para irmos embora de consciência tranquila. São burburinhos sem importância. Nos comboios da vida.
Eu perguntei, fiz a minha parte. Tu devias ter dito que estava tudo bem, poupavas trabalho. Não tenho a culpa que não esteja mas também a minha paciência não é muita, toda a gente sabe disso. Já me bastam os meus problemas. Aqueles que eu digo que não tenho. E agora só me sai isto: Hakuna Matata. Porque não sei dizer o futuro e o presente pouco me diz a mim também.
Para concluir volto a pegar no teu texto "Assim, parece que andamos apenas e só a representar um papel que nos foi dado, mas não sabemos o que fazer com ele, quais serão os passos certos, neste palco, que é a vida?"
Será que não é esta cor ilusória que dá alguma pimenta à vida? Se fossemos sempre tão verdadeiros com todos ... provavelmente ninguém conseguiria co-habitar pacificamente nesta coisa que lhe chamam o "planeta azul".
Beijinhos
* pimenta agri-doce (esqueci-me desta parte)
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